Enxaqueca – Muito além do básico

O que é a Enxaqueca?

A enxaqueca — também chamada de migrânea — é uma doença neurológica crônica, caracterizada por episódios recorrentes de dor de cabeça intensa, geralmente de um lado da cabeça (unilateral), com caráter pulsátil ou latejante. A dor costuma ser acompanhada de náuseas, vômitos, sensibilidade exagerada à luz (fotofobia) e ao som (fonofobia), com duração que varia de 4 a 72 horas.

Longe de ser uma simples “dor de cabeça forte”, a enxaqueca é uma condição neurológica complexa, com base genética e fisiopatológica bem estabelecida, que afeta de forma significativa a qualidade de vida, a produtividade e o bem-estar emocional de quem sofre com ela.

📌 A enxaqueca é a segunda doença neurológica mais incapacitante do mundo, segundo o Global Burden of Disease Study 2019.

 

Enxaqueca é comum ?

A enxaqueca afeta cerca de 15% da população mundial — aproximadamente 1 bilhão de pessoas. No Brasil, estima-se que mais de 30 milhões de pessoas sejam afetadas, sendo três vezes mais frequente em mulheres do que em homens, especialmente na fase reprodutiva.

 

Tipos de Enxaqueca

Enxaqueca sem Aura

A forma mais comum. Caracteriza-se pelos episódios de dor com as características típicas descritas acima, sem sintomas neurológicos precedentes.

Enxaqueca com Aura

Cerca de 30% dos pacientes apresentam sintomas neurológicos transitórios que antecedem ou acompanham a dor — as chamadas “auras”. Os mais frequentes são: alterações visuais (flashes de luz, pontos cegos, linhas em ziguezague), formigamentos em um lado do corpo, dificuldade para falar ou fraqueza muscular transitória.

Enxaqueca Crônica

Quando os episódios de cefaleia ocorrem por 15 ou mais dias por mês, durante pelo menos 3 meses, com características de enxaqueca em pelo menos 8 desses dias. Representa um dos quadros de maior impacto funcional e requer estratégia terapêutica específica e individualizada.

Estado de Mal Enxaquecoso

Episódio de enxaqueca com duração superior a 72 horas, frequentemente necessitando de avaliação especializada e, por vezes, tratamento hospitalar.

 

Causas e Gatilhos

A enxaqueca tem origem multifatorial, com forte componente genético. A fisiopatologia envolve disfunção do sistema trigemino-vascular e alterações na excitabilidade cortical. Entre os principais gatilhos identificados pelos pacientes estão:

  • Privação ou excesso de sono
  • Estresse emocional e ansiedade
  • Alterações hormonais (menstruação, uso de anticoncepcionais)

Outros gatilhos menos relevantes que os anteriores: 

  • Jejum prolongado ou desidratação
  • Estímulos sensoriais intensos (luz forte, barulho, cheiros)
  • Mudanças climáticas e de pressão atmosférica
  • Consumo de álcool, especialmente vinho tinto
  • Alimentos como queijos curados, embutidos e cafeína em excesso

📌 Identificar os gatilhos individuais é parte fundamental do tratamento. O diário de cefaleia é uma ferramenta valiosa nesse processo.

Além dos gatilhos, outro fator importante para não melhora ou cronificação da enxaqueca é o uso frequente de analgésicos. 

Diagnóstico

O diagnóstico da enxaqueca é essencialmente clínico, baseado nos critérios estabelecidos pela Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), publicada pela International Headache Society. Uma anamnese detalhada e um exame neurológico completo são os principais instrumentos diagnósticos.

Exames de imagem (tomografia ou ressonância magnética) são solicitados quando há sinais de alerta que sugiram causas secundárias de cefaleia — como início súbito e intenso, mudança no padrão habitual da dor, presença de febre, rigidez de nuca, déficits neurológicos ou cefaleia progressiva.

 

Tratamento

Tratamento Agudo (da Crise)

O objetivo é interromper o episódio de dor o mais rapidamente possível. As opções incluem:

  • Analgésicos e anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno, dipirona)
  • Triptanos — a classe de medicamentos mais específica para enxaqueca (sumatriptana, rizatriptana, eletriptana, entre outros)
  • Gepantes — antagonistas dos receptores de CGRP de nova geração (ubrogepante, rimegepante) – ainda não disponível no Brasil
  • Ditanas — lasmiditan, agonista seletivo do receptor 5-HT1F – ainda não disponível no Brasil
  • Medicamentos antieméticos para controle de náuseas

Tratamento Preventivo

Indicado para pacientes com 3 ou mais crises por mês, crises muito incapacitantes ou enxaqueca crônica. O objetivo é reduzir a frequência, intensidade e duração dos episódios. As principais classes incluem:

  • Betabloqueadores (propranolol, metoprolol)
  • Antidepressivos (amitriptilina, venlafaxina)
  • Anticonvulsivantes (topiramato, ácido valpróico)
  • Bloqueadores dos canais de cálcio (flunarizina, verapamil)

Tratamentos Modernos — Anticorpos Monoclonais Anti-CGRP

A maior revolução no tratamento preventivo da enxaqueca na última década foi o desenvolvimento dos anticorpos monoclonais direcionados ao CGRP (Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina) ou ao seu receptor — molécula central na fisiopatologia da enxaqueca.

  • Erenumabe (Aimovig) — bloqueio do receptor de CGRP
  • Fremanezumabe (Ajovy) — bloqueio do CGRP
  • Galcanezumabe (Emgality) — bloqueio do CGRP
  • Eptinezumabe (Vyepti) — administração intravenosa trimestral – ainda não disponível no Brasil

Esses medicamentos representam avanço significativo, especialmente para pacientes com enxaqueca crônica refratária a tratamentos convencionais, com perfil de segurança favorável e boa tolerabilidade.

Toxina Botulínica (Botox) para Enxaqueca Crônica

Aprovada pelo FDA e pela ANVISA para enxaqueca crônica (≥15 dias de cefaleia por mês), a onabotulinumtoxina A (Botox) é aplicada em pontos específicos da cabeça, pescoço e ombros, a cada 12 semanas. Estudos clínicos demonstram redução na frequência das crises em pacientes com enxaqueca crônica.

📌 O Dr. Michel é professor do curso de pós-graduação em dor do Hospital Albert Einstein e possui vasta experiência no manejo da enxaqueca com todos os tratamentos disponíveis, incluindo anticorpos anti-CGRP e toxina botulínica.

 

Quando Buscar um Neurologista?

  • Dores de cabeça frequentes (mais de 4 vezes ao mês)
  • Dores que incapacitam as atividades do dia a dia
  • Uso frequente de analgésicos (mais de 10 dias por mês)
  • Dor de cabeça com início súbito ( aquela que a intensidade é máxima em menos de 5 minutos) 
  • Cefaleia acompanhada de febre, rigidez de nuca, confusão mental
  • Mudança no padrão habitual das crises
  • Presença de sintomas neurológicos como fraqueza, formigamento ou alteração da visão
  • Dor de cabeça desencadeada por esforço ou relação sexual
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